Da morte à prisão: cronologia do caso da PM morta com tiro na cabeça e as mensagens que revelaram controle e ameaças

Da morte à prisão: cronologia do caso da PM morta com tiro na cabeça e as mensagens que revelaram controle e ameaças

Tenente-coronel é preso; provas da polícia sobre a morte da PM Gisele Alves vão contra versão apresentada por ele
A morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava, no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro, passou de um registro inicial de suicídio para uma investigação por feminicídio que levou à prisão do marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, um mês depois.
O caso reúne laudos periciais, contradições, mensagens e decisões judiciais recentes.
Veja abaixo a cronologia do caso até o pedido da polícia:
Antes da morte
Mensagens extraídas pela Corregedoria da Polícia Militar do celular do tenente-coronel apontam que ela teria sido agredida fisicamente por ele 13 dias antes de morrer no apartamento.
Segundo relatório de investigação ao qual a TV Globo teve acesso, no dia 6 de fevereiro os dois trocaram mensagens nas quais Gisele afirma que o marido estava “sempre caçando um motivo para brigar” e que teria agredido e gritado com ela no dia anterior, 5 de fevereiro de 2026.
“Você sempre caçando um motivo para brigar. Mas você vai ver só. Você enfiou a mão na minha cara ontem. Gritou comigo hoje”, escreveu.
Dias antes de ser encontrada morta, Gisele também enviou mensagens a uma amiga se queixando de ciúmes do marido.
“Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego. Não tenho como controlar o que falam, muito menos o que acham […]”, teria dito a PM.
Mensagens indicam que tenente ‘enfiou a mão na cara’ da esposa PM 13 dias antes da morte
Segundo a mãe de Gisele, cinco dias antes de ser encontrada morta, a PM telefonou dizendo que não estava mais suportando a pressão e que queria se separar.
Em sua versão do que ocorria no relacionamento, Geraldo conta que os dois se conheceram em 2021, oficializaram o namoro em 2023 e se casaram em 2024.
O tenente-coronel afirma que o relacionamento começou a ficar conturbado em 2025, quando os dois estavam brigados por conta de um boato de um suposto relacionamento extraconjugal em um batalhão em que ele trabalhava.
18 de fevereiro – PM é encontrada morta
Na manhã da quarta-feira, 18 de fevereiro, Gisele foi encontrada morta no apartamento onde morava, no Brás, região central de São Paulo.
Segundo o boletim de ocorrência registrado no dia, o marido a encontrou caída no chão, com uma arma na mão e intenso sangramento. Gisele chegou a ser socorrida e levada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu. O caso foi registrado como suicídio após o depoimento do marido.
Foi neste dia que a mãe da vítima afirmou, em depoimento, que o relacionamento era extremamente conturbado, e que o oficial seria abusivo e violento, impondo restrições ao comportamento da filha.
Gravações de câmeras corporais de policiais militares que vieram à tona no dia 20 de março mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo – que queria preservar o local onde a soldado Gisele Alves foi baleada na cabeça – e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela, o tenente-coronel.
20 de fevereiro – Polícia passa a investigar caso como morte suspeita
Após o registro inicial e a coleta de depoimentos, a natureza da ocorrência passou a ser morte suspeita. A investigação também passou a ser acompanhada pela Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
20 de fevereiro – Inquérito da PM que mostra perseguição e ameaças vêm à tona
Denúncias anônimas registradas em um Inquérito Policial Militar (IPM) obtido pela TV Globo mostram que Geraldo e Gisele viviam uma relação conturbada, marcada por ameaças, perseguição e episódios de instabilidade emocional.
A portaria do Inquérito Policial Militar, instaurado no dia 20 de fevereiro, registra, a partir das denúncias, que o oficial “possui instabilidade emocional”, sendo necessário investigar a “perseguição e ameaças” sofridas pela soldada. O documento afirma ainda que Gisele “vivia sob o temor manifestado” diante das atitudes do tenente-coronel, segundo denúncias anônimas, e que tais relatos foram “presenciados por diversas testemunhas”.
O documento diz ainda que o disparo, que causou a morte de Gisele, ocorreu após uma discussão do casal. A família de Gisele já havia relatado que o casal brigava muito e que ele a perseguia.
Em outro caso, Geraldo já havia sido condenado por abuso de autoridade em outubro de 2024.
Na decisão, a Justiça reconheceu que ele praticou assédio moral quando ainda era major, com ações repetitivas que tinham o “objetivo ou efeito de atingir a autoestima e a autodeterminação, bem como sua dignidade”, causando danos ao ambiente de trabalho.
Segundo a petição inicial do processo, a PM que moveu a ação relatou uma série de episódios que classificou como assédio moral e perseguição por parte do então major.
23 de fevereiro – Reconstituição do caso
A reconstituição, feita por peritos do Instituto de Criminalística (IC), ocorreu no último dia 23 de fevereiro na residência onde o casal morava no Brás, Centro da capital.
Geraldo participou da ação.
3 de março – Laudo revela disparo de arma encostado no lado direito da cabeça
O laudo inicial da ocorrência revelou um disparo de arma de fogo encostado no lado direito do crânio.
6 de março – Corpo é exumado
Laudo aponta lesão no pescoço da PM morta baleada
Após determinação da Justiça, o corpo da soldado foi exumado. O procedimento foi realizado pelo Instituto Médico Legal (IML), da Polícia Técnico-Científica.
Em perícias realizadas após o procedimento, peritos identificaram marcas na região do pescoço e no corpo da policial militar. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.
O documento obtido com exclusividade pela TV Globo diz que essas lesões eram “contundentes” e feitas “por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal” (arranhões que indicam marcas de unhas).
8 de março – Foto de socorrista muda caso
Em depoimento a que o Fantástico teve acesso, um dos socorristas disse que desconfiou da posição da arma na mão de PM encontrada baleada em SP. Ele achou a cena estranha e, por isso, decidiu fotografá-la. A desconfiança ocorreu porque, segundo ele, a arma estava bem encaixada na mão de Gisele, de um modo que ele nunca tinha visto em um caso de suicídio.
No mesmo inquérito da Polícia Civil, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência levantam questionamentos sobre a versão apresentada pelo marido da vítima.
Em depoimento, o oficial afirmou que estava no banho no momento em que ouviu o disparo, mas os primeiros bombeiros que chegaram ao local disseram que ele estava seco e que não havia marcas de água no chão do apartamento.
O tenente-coronel disse que entrou no banheiro para tomar banho por volta das 7h e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que pensou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala.
Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência relatou que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo de bermuda, sem camisa e inteiramente seco.
10 de março – Vídeo com policiais saindo do apartamento após morte repercute
Vídeo mostra 3 policiais que entram e saem de apartamento em que PM morreu em SP
Uma câmera de segurança registrou os momentos em que três policiais mulheres entraram e saíram do apartamento em que Gisele foi encontrada sem vida.
Segundo uma testemunha afirmou em depoimento à Polícia Civil, as agentes foram limpar o apartamento, no Brás, região central de São Paulo, cerca de 10 horas após a ocorrência.
11 de março – Tenente-coronel passa a ser investigado
Após a determinação da Justiça de São Paulo que a polícia começasse apurar o caso como feminicídio, o marido de Gisele passou a ser considerado investigado no caso.
A decisão ocorreu depois de um laudo necroscópico, realizado após a exumação do corpo, apontar lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.
13 de março – Ex-marido de PM depõe e diz que ela ‘nunca pensou em suicídio’
O ex-marido de Gisele depôs na sexta-feira (13) de março. Segundo o advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa a família da soldado e acompanhou o ex, ele afirmou que a soldado “nunca pensou em cometer suicídio”.
14 de março – Defesa de tenente-coronel sustenta versão de suicídio
Em entrevista ao g1, o advogado Eugênio Malavasi, que defende o tenente-coronel Geraldo, afirmou que a defesa aguardava “a defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel”.
“E isso será comprovado de forma cristalina ao final da investigação”, afirmou.
16 de março – Advogado da família apresenta áudio e acusa “histórico ameaçador”
Advogado apresenta áudio de PM morta com tiro na cabeça
Nesta segunda-feira (16), o advogado da família da soldada apresentou um áudio que, segundo ele, mostra que a policial planejava sair do apartamento onde morava com Geraldo.
No áudio apresentado pelo advogado, Gisele fala sobre a busca por uma casa próxima da residência dos pais para facilitar a rotina de trabalho e os cuidados com a filha.
Em outro trecho, ela explica que morar mais perto ajudaria a evitar deslocamentos longos antes do trabalho.
O advogado também disse que o tenente-coronel Neto tem um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres.
Segundo o advogado Miguel Silva, há registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras e também denúncias de assédio e perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial dentro da corporação.
17 de março – Pedido de prisão do tenente-coronel após laudos
O pedido de prisão ocorreu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao processo laudos relacionados ao caso.
Alguns laudos da Polícia Técnico-Científica de São Paulo confirmaram que a policial militar Gisele Alves não estava grávida e também não foi dopada, mas que havia mais manchas de sangue da soldado espalhadas por outros cômodos do apartamento onde ela morreu.
18 de março – Prisão do tenente-coronel
A Justiça Militar decretou a prisão, e o oficial foi preso pela manhã em um apartamento em São José dos Campos.
Ele foi levado à Corregedoria da PM e, depois, transferido para o Presídio Militar Romão Gomes.
Na chegada à unidade, ele foi recebido com um abraço.
Tenente-coronel Geraldo Neto é abraçado por PM na chegada ao presídio Romão Gomes, em SP
Reprodução
18 de março – Audiência de custódia
Na audiência de custódia, a prisão foi mantida. O tenente-coronel insistiu na versão de que a esposa teria cometido suicídio e chegou a mencionar a possibilidade de tirar a própria vida.
Familiares de Gisele comemoraram a prisão.
20 de março – STJ nega habeas corpus
O Superior Tribunal de Justiça negou o pedido de liberdade da defesa, mantendo a prisão do oficial.
No mesmo dia, vieram à tona novas mensagens que reforçam a linha investigativa de controle, ciúmes e comportamento abusivo, incluindo declarações de que, por ser o provedor, a esposa deveria “retribuir”.
Também passou a ser discutido se o caso será julgado pela Justiça comum, em júri popular, ou pela Justiça Militar.
21 de março – Novas mensagens e estado de saúde
Mensagens analisadas pela polícia reforçam o cenário de controle, ameaças e exigências no relacionamento.
No mesmo dia, o tenente-coronel passou mal no Presídio Militar Romão Gomes e foi levado para um hospital.
Pontos que levantaram suspeitas
Investigadores destacam o intervalo entre o disparo e o socorro, inconsistências sobre o banho, ausência de desespero e falta de tentativa de primeiros socorros.
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Caso da PM morta em São Paulo.
Fantástico
Pontos de atenção do caso
Horário
Alguns pontos chamam a atenção dos investigadores sobre a morte. Um deles é o horário da morte. Uma vizinha do casal afirmou à polícia que acordou às 7h28 depois de ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento.
Isso aconteceu cerca de meia hora antes da primeira ligação feita pelo marido da vítima ao serviço de emergência. Na chamada para a PM, registrada às 7h57, ele disse que a esposa havia se matado.
“Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça. Manda o resgate e uma viatura aqui agora, por favor”, afirmou Neto na ligação.
Minutos depois, às 8h05, ele ligou para o Corpo de Bombeiros e disse que a mulher ainda estava respirando. As equipes chegaram ao local às 8h13.
Banho
No mesmo inquérito da Polícia Civil, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência levantam questionamentos sobre a versão apresentada pelo marido da vítima.
Em depoimento, o oficial afirmou que estava no banho no momento em que ouviu o disparo, mas os primeiros bombeiros que chegaram ao local disseram que ele estava seco e que não havia marcas de água no chão do apartamento.
O tenente-coronel disse que entrou no banheiro para tomar banho por volta das 7h e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que pensou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala.
Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência relatou que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo de bermuda, sem camisa e inteiramente seco.
O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o tenente-coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco
Ele também afirmou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor.
A observação foi reforçada por um tenente da PM cuja equipe foi a primeira a chegar ao local dos fatos. Ele apontou que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo.
Conduta e falta de desespero
Outro ponto que chamou a atenção da equipe de resgate foi o estado emocional do marido. O sargento do Corpo de Bombeiros afirmou que não viu nenhum tipo de desespero por parte do tenente-coronel nem o viu chorando.
Um segundo bombeiro também estranhou a conduta do marido porque ele “falava calmamente” ao telefone, questionava a todo momento o atendimento prestado pelos bombeiros e insistia que a vítima fosse retirada com pressa e levada imediatamente ao hospital.
Os socorristas também observaram que o oficial não apresentava nenhuma marca de sangue no corpo ou nas vestimentas, o que indicaria que ele não teria tentado prestar os primeiros socorros à esposa.
Ligação para desembargador
Entre os contatos feitos por Geraldo na manhã da ocorrência, um deles chamou a atenção da família da policial: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Ele chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel. O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local.
“Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo.”
9h18: o desembargador reaparece no corredor.
9h29: Após 11 minutos, o tenente-coronel surge com outra roupa.
Entrada e saída de policiais do apartamento
Uma câmera de segurança registrou a entrada e a saída de três policiais no apartamento onde Gisele morreu. Segundo uma testemunha, as agentes foram ao local cerca de 10 horas após a ocorrência para fazer a limpeza do imóvel.
Ainda de acordo com a testemunha, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 de 18 de fevereiro, o mesmo dia da morte, e entraram no local acompanhadas por uma funcionária do edifício.
As imagens mostram que elas permaneceram por aproximadamente 50 minutos e não saíram com objetos. As policiais serão ouvidas na investigação.
Em nota divulgada antes do laudo feito após a exumação, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento.
A defesa do tenente-coronel não se manifestou após o pedido de prisão.

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